Nunca tive essa sensação de amparo que muitos descrevem quando falam em família, apenas posso dizer as conseqüências da falta desses momentos em minha vida...
Durante os meus primeiros seis anos meus pais viveram juntos, certamente houve momentos de alegria, posso descrever alguns, mas nunca a sensação de união, apenas as constantes brigas entre meus pais, as tantas surras que eu e meu irmão tomávamos do meu pai e finalmente a separação deles, com eu, meu irmão e minha mãe vivendo na casa dos meus avós maternos pois nossa casa não estava pronta.
Com o tempo a alegria que eu sentia de chegar na casa de meus avos
foi substituída por incerteza, quando o olhar deles para nos não era mais de admiração.
Desentendimentos entre minha mãe e avos fizeram com que nos mudássemos para a casa em construcao, sem energia elétrica, sem piso e depois enfrentamos eu e meu irmão o avançar da esquizofrenia da minha mãe, que nos deixava presos ou para dentro ou para fora de casa, sem comida, sem banho, as roupas e brinquedos que ganhávamos eram guardados, junto com os montes e montes de entulho que se acumulavam.
Em pouco tempo passamos a ser discriminados na escola, discriminados pelos familiares, que nos tratavam com desdém e mesmo meus avos tinham vergonha de nos, lembro que minha avo nos proibia de aparecer em sua casa quando tinha visitas, lembro também do olhar dela quando eu pedia a ela um pedaço de pão... Como se não fossemos sangue do seu sangue...
Havia tambem nossos tios, avos paternos e tantos outros familiares que moravam, alguns do lado de nossa casa, outros na mesma cidade e cidades vizinhas e assistiram nosso sofrimento sem nada fazer...
Inacreditável pensar, um verdadeiro crime cometido contra nos, que deveríamos estar amparados por nossa família, já que todos moravam perto, mas fecharam seus olhos criminosamente.
Ainda na infância iniciei um processo de introspecção, talvez por não esperar muito das pessoas, já que minha própria família não me amparava, iniciou-se um período de certa solidão que foi preenchido pela leitura, comecei a escrever também, descobrir meus dons para a musica e ouvi e claro, de alguém de fora que eu escrevia bem e que eu cantava bem, acreditei nisso e isso me ajudou a levantar minha auto estima e buscar dentro de mim essa beleza escondida pelas roupas feias e sujas que eu usava.
Passei a encontrar dentro de mim o amor e a atenção que me faltavam, fui capaz de começar a gostar de mim e buscar no mundo da imaginacao toda a magia que eu tanto queria para a minha vida.
Meu pai nos visitava duas vezes ao ano, eu sentia uma mistura de alegria e medo pois ele sempre trazia presentes, junto com uma boa surra caso alguém reclamasse sobre nos. Eu sentia também muita vergonha pela maneira que vivia... como se a culpa fosse minha....
A adolescência veio, junto com a vergonha que eu sentia por não ter roupas, por não ter o habito de tomar banho, por viver em uma casa sempre suja e cheia de entulhos, sem comida e sem os cuidados de uma verdadeira mãe...
Apesar disso e da minha introspecção eu consegui fazer amigos, lembro das festas de igreja, o descobrimento do amor, das paqueras, lembro das brincadeiras com os primos, os vizinhos, jogando taco, vôlei na rua sem saída de nossa família, os natais, montando a arvore com as bolas antigas de natal, o presepio, os presentes e a ilusão da presença de todos ao redor da mesa... banho tomado ao menos nesse dia e eu me sentia ao menos um pouco parte daquilo...
Natal em familia... ao menos um dia, em familia...e o resto do ano sem familia...
Passei por um período de revolta contra minha mãe, realmente muito indignada com o tipo de vida que levávamos, ainda mais com a minha Irma na epoca pequena, por sorte nada de grave aconteceu com ela já que eu era uma crianca e cuidava dela quando minha mãe saia para trabalhar... lembro dela chorando quando a noite chegava e ficávamos no escuro com a companhia de um radinho de pilhas... lembro do medo que eu sentia e da alegria quando minha mãe chegava, sempre com uma comidinha para matar a fome antes que ela nos matasse.
Resolvi morar com o meu pai e novamente não houve sinal de uma familia, com minha madrasta interferindo e prejudicando nosso relacionamento (meu e do meu irmão) com meu pai, e ficou claro novamente o mesmo egoísmo e a falta de amor que fez com que ele tenha nos deixado todos aqueles anos passar o que passamos.
Não havia dialogo, apenas imposições e punições físicas violentas, novamente não senti qualquer sinal do carinho que por tantos anos havia imaginado, ele simplesmente construiu outra família e esqueceu de nos.
Para piorar a situação não podia contar com meu irmão, pois também ele me tratava mal, revoltado e frio como havia sido tratado pela vida... eu nem podia culpa-lo por ser assim.
Passada a ilusão de viver feliz com meu pai, novamente me fechei em meu mundo, passei a ler muito, estudar, escrever, com freqüência textos que falavam de saudades de como eu gostaria que fosse a minha vida com minha mãe, com meu pai, de como eu gostaria de ter feito parte de uma família que me amasse, muitas e muitas vezes me passou pela cabeça a idéia de suicídio, mas Deus estava comigo e nunca me deixou sentir desamparada a ponto de cometer este erro...
Apesar desses sentimentos, fiz amizades na escola e fora dela, e logo descobri como era ser querida por alguém nos tantos namoros que vivi e neles passei a me apoiar para sentir que valia a pena viver...
Aos 18 anos a minha vida mudou completamente e me senti pela primeira vez feliz de verdade, quanto finalmente fui morar sozinha, quer dizer, morei com meu irmão, mas foi so uma questão de tempo para eu ir morar sozinha... e foi o dia mais feliz de minha vida!!!!
Aos 19 conheci pela primeira vez o amor de uma mulher, foi esta primeira namorada que me incentivou a morar sozinha... tenho tantas boas recordacoes dessa epoca, indo comprar minha primeira TV, meu primeiro vídeo game, que virou a grande paixão da minha vida e persiste ate hj.
Como eu não tinha um modelo de pessoas que se ajudam mutuamente, que e o modelo de uma família, aprendi a ser autosuficiente na medida do possível, aprendi a me consolar quando algo ruim acontecia, para isso sempre gostei de escrever, refletir e assim tomar as decisões que fizeram de mim o que sou hj... posso dizer que sou inteiramente responsavel pelos caminhos que trilhei pois refleti muito sobre eles, alem disso tive ajuda de pessoas maravilhosas que Deus colocou no meu caminho.
Passei a curtir muito esses momentos que muitos chamam de solidão, mas que na verdade são os momentos que eu tenho comigo mesma, para escrever minhas poesias e nelas colocar cada momento da minha vida, para escrever os tantos diários que ma serviam de conselheiros, meu momento com Deus, para ouvir seus conselhos, ler, jogar vídeo games, estudar, curtir os tantos cachorros e gatos que tive (e que sempre sofreram muito em minhas mãos pois eu não havia aprendido a cuidar do outro já que nao me sentia cuidada) mas o fato e que eu adorava passear com meus cachorros e curtir a Cia dos cães e gatos em minha casa.
Eu percebi que precisava dividir esses meus momentos de introspeccao com as constantes festas, já que sempre gostei muito de sair, e percebi também que precisava de parceiros para isto, nunca fui aquele tipo de pessoa que busca nas amizades um ombro, uma convivência, meu tempo comigo sempre foi mais importante, apesar de em algumas fases de minha vida (especialmente quando não estava namorando) eu ter vivido mais a coletividade, meu tempo comigo sempre foi mais importante e ate hj segue assim, o que as pessoas encaram como isolamento ou ate doenca sei La, mas o importante e que eu sempre soube o valor desse tempo para a minha evolução intelectual e pessoal, para a minha diversão e alegria, portanto as amizades que construi ate hj sempre foram mais baseadas nas coisas que tínhamos em comum, um carinho sem esperar nada em troca, sem a obrigacao de estar sempre juntos, apenas pelas afinidades e não pela troca de serviços como são a maioria das amizades hj em dia.
Se houve e há uma seqüela em relação a ausência de família em minha vida ela esta relacionada ao habito de resolver minhas coisas sozinha, de tomar sempre o cuidado de ter minha vida pessoal independente de qualquer outro relacionamento, talvez por medo de me entregar e sofrer novamente, sei que jamais vou colocar a minha vida nas mãos de ninguém (a não ser nas mãos de Deus, onde minha vida já esta), sequer quero viver junto de outra pessoa (como já vivi e percebi que não consigo ser feliz), hj namoro mas mantenho religiosamente minha casa, minhas coisas, meu espaço onde posso ficar quando quero estar a SOS comigo mesma, um dia para este meu encontro comigo e outros dias para estar entre as pessoas, no meu trabalho e com a pessoa com quem namoro.
Devido a minha incapacidade de me doar, minha auto-suficiencia em vários aspectos e diga-se de passagem devido ao meu excesso de auto estima, confiança e porque não dizer felicidade, muitas pessoas se afastam por falta de entedimento e ate por inveja, outras se frustram pois não conseguem penetrar na minha vida, eu realmente valorizo muito minha individualidade e não pretendo mudar isso, embora em uma ou outra fase eu me comporte um pouco mais abertamente.
Apesar da dificuldade de entendimento de algumas pessoas que tem a amizade aliada a serviços, o modelo de amizade por afinidade e em liberdade me trouxe bons amigos.
Fiquei muito surpresa ao descobrir o amor, percebi que ele, mais do que qualquer outro sentimento, vem com a capacidade de se doar sem esperar nada em troca e assim comecei a investir em aliados, cada um dos meus namoros (de cerca de 4 anos) me trouxeram pessoas que me ajudaram muito, e que apesar da minha temporária incapacidade de me doar sempre se doaram muito e foram a familia que eu não tive, com o incentivo delas eu passei a acreditar mais em mim, construi minha vida, fiz faculdade, mestrado, consegui um bom emprego, e tambem consegui exorcisar os fantasmas do passado e assim me abrir um pouco mais, sem tanto medo de sofrer amando sem me sentir amada, como me sentia na infancia, e assim aprendi, sendo amada, que eu também poderia amar, aprendi recebendo dos outros, que eu tambem posso me doar, que eu posso fazer algo pelos outros... isso eu venho aprendendo ate hj... ainda e dificil me doar.
Devido aos ensinamentos que esses amores e que a presença de Deus em minha vida me ensinaram, ainda procurei depois de adulta o meu pai e meus irmãos, mas, apesar dos meus repetitivos esforços eles demostraram que o egoísmo e a mesquinhez da qual foram vitimas eram mais fortes do que a vontade de estar em família, entendi que tudo que vivemos e a distancia cortou os laços que haviam entre nos, então resolvi superar isso e seguir em frente, com a consciência tranqüila por saber que tentei e mais ainda por perceber que não faz a menor falta... sentimos falta das pessoas que nos amam e nos querem... as demais tornam-se lembrancas e depois de um tempo nem isso....
Com certeza não ter uma família me fez mais forte, capaz de lidar com as incertezas e problemas da vida com mais facilidade, não me deixar enganar, filtrar pessoas e situações prejudiciais, mas so a vida e o amor de algumas pessoas pode me fazer entender que eu poderia construir uma vida feliz, bem diferente e independente do que eu vivi no passado.
Eu decidi viver minha vida valorizando os momentos maravilhosos que vivi, tanto aqueles com outras pessoas e nos lugares diversos, quanto aqueles como este, em que eu refleti sobre a minha vida e escrevi de madrugada as tantas poesias e diários.
Eu decidi também que, mesmo que isso me custe ter menos pessoas ao meu redor, vou me dedicar mais a esse mundo intelectual, dos estudos, da musica, das palavras e também me dedicar a pessoas que me amem e realmente merecam que eu dedique meu precioso tempo...
Não vou perder tempo com serviços e demandas de gente com quem eu sequer tenho afinidade... quero poder aprender, por meio das amizades e amor verdadeiros a me dar sem esperar nada em troca, de uma certa forma já ensaio esse tipo de atitude no amor com o qual eu exerço a minha profissao, e estou aprendendo a cada dia que posso fazer ainda melhor!!!
Eu gosto do silencio da noite, da imagem da minha casa, das minhas coisas, gosto de ouvir a voz de Deus a me aconselhar e inspirar, gosto de sentir sua proteção.
So o silencio da noite, a paz e o aconchego da minha casa me permitem estar mais perto de ti e aprender contigo meu Deus...
Fica comigo e me acompanha... exatamente como tem feito todos esses anos, sendo meu guia, meu amparo e enviando pessoas maravilhosas para me mostrar o verdadeiro sentido da família AMOR, CARINHO, PAZ, PROTECAO, SUPORTE E FELICIDADE QUE INDEPENDEM DOS LACOS SANGUINEOS, TODOS OS QUE SE AMAM PODEM SE UNIR E FORMAR UMA FAMILIA!
